
A cômoda Luiz XV
Estava cansada de tentar se entender e viveu como se fosse livre, cedendo a todo impulso que cortava as carnes e magoava as vísceras. Não suportava a ideia de não ser livre, de não poder escolher o que podia ou não fazer. Todos diziam que ela era rebelde, mas tomavam sua rebeldia como coisa de adolescente que não cresceu, escutou milhões de vezes: “é a fase da revolta!”. Já não queria tentar mais nada por estar cansada demais. Então se lembrou do antigo palacete que herdara, mas o Rio de Janeiro era longe demais, quente demais e luminoso demais. Otávio insistia em gritar em seus ouvidos, como se quisesse deixá-la surda, tinha muitos argumentos para que não fosse.
Tudo em sua vida medíocre sobrava, não suportava mais desperdícios, era o momento de aparar arestas!
Aquela rotina de fugas passou dos limites suportáveis e enfim queria olhar-se de frente e ver sua imagem sem as máscaras que se impunha. Nunca conseguira encarar-se de frente, nua e sem explicações vazias. Juntou a meia dúzia de vestidos que salvou da fogueira da noite anterior, o rímel e o batom vermelho, dois pares de sapatos, o maço de cigarros e o pouco dinheiro, jogou tudo na mala que também herdara do pai e saiu rumo ao Rio.
Tentou abstrair, mas era impossível, a imagem do pai ia e vinha naqueles sermões vexatórios que só serviram pra estimular mais ainda sua ambição pelo erro, supôs ter se livrado dele, aliás, só foi ao funeral para ter a certeza que ele tinha sido mesmo enterrado, que era mesmo morto. Mas César tomou seu lugar, disfarçava sua repulsa sob aqueles olhos afáveis e em silêncio a condenava.
Sim, amava Otávio, pois perdeu a conta de quantas vezes ele a salvara de seu pai, mas não a libertou de César, o maldito que escolhera para amante e ele resistiu com méritos, minava suas forças e a destruía na maneira de olhar repreendendo. Parecia que aprendera com seu pai como tocá-la com ódio, como engolir seus pensamentos opressores e sorrir irônico como se nada estivesse acontecendo!
Esse ciclo repetitivo deveria ser quebrado, segurou a chave contra o peito e respirou fundo, subiu os dois pequenos lances de três degraus e abriu a porta.
Tudo estava encoberto por lençóis e uma camada densa de poeira, mas tudo exatamente como fora deixado há mais de oito anos, o certo é que ninguém fora ali até então.
As respostas poderiam estar naquele lugar empoeirado, debaixo daqueles lençóis sujos e ela estava disposta a encontrá-las. Mas ao mesmo tempo temia o que a esperava debaixo daquilo tudo, aquele casarão era sua caixa de Pandora, depois que girou a chave a porta estava aberta e ela à mercê dos os monstros que a atormentaram por toda sua vida.
Cecília deparou-se com sua cômoda Luiz XV, com suas cinco gavetas, intactas, tal qual quando a ganhou quando fez treze anos.
As gavetas do móvel denunciariam o ciclo de sua condição primária, o caos. Soube desde menina que não era como as outras, bem que tentou se adaptar, mas também descobriu muito cedo como era agradável descobrir-se fora daqueles compartimentos organizados.
Não conhecia Schopenhauer e já não dava valor aos melhores colégios, nem aos bons professores, ou aos bons modos. Doou-se sempre à condição de ser contraditória. Coordenava bem seus movimentos, mas não tão bem as palavras quando estava cheia de dúvidas e de ódio. Por isso fugia da realidade, as drogas, a embriaguez, qualquer coisa que a livrasse de suas confusões existenciais, e mesmo assim foi considerada a louca, a desajustada.
Julgou engraçado observar os outros e constatar a ignorância impressa em cada gesto de punição ou de tentativas de controle e ajuste que tomavam em relação ao seu comportamento estranho. Mas todas as suas tragédias pessoais estavam intimamente ligadas à incompreensão alheia e ela não via isso.
Na visão de Cecília as pessoas idolatravam a propriedade, queriam ter, comandar, conduzir a vida e as escolhas dos outros, baseadas apenas em suas experiências e peculiares subjetividades.
Em contraponto preferiu ser, abriu mão de tudo que teve e saiu pelo mundo, errante. E naqueles dias acreditava que não era pena que os outros tinham e sim inveja. Desejavam ter a coragem que teve, de abandonar tudo e de ser chamada de covarde sem sentir nenhum remorso ou culpa.
Aprendeu a rir chorando, pois era contrariar demais ser sem limites e tinha os seus próprios muros. Jogou-se contra eles com tanta força que agora se sentia espório daquilo que mais odiava. Estava insegura e sentia vontade de chorar quão grande a sua decepção consigo.
Era evidente que estava mais sozinha que nunca, que se impôs o fardo do ser para vivenciar cada rusga de si como se fosse um desmembrar social, um investimento em suas durezas, enquanto o mundo se fingia afável. Não sabia se vencedora ou derrotada, mas em batalhas ideológicas não abria mão de sua filosofia.
Perguntava-se ali, sentada no chão, de frente para o móvel, imóvel: em quantas gavetas estaria guardado o seu desatino?
Sim, aquela cômoda Luiz XV guardava na gaveta superior à esquerda, os seus desatinos, algumas meias finas velhas e suas calcinhas adolescentes. Na da direita, agora vazia, guardara todas as dores de sua carne e os diários de infância, há muito tempo queimados. Nas inferiores, de cima para baixo: na primeira os sons de todos os desesperos e dias de chuva que viveu; na segunda as crenças que perdera durante toda a vida; e na terceira a realidade, mas essa gaveta estava trancada com chave!










