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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Café com biscoitos





Pressionando as mãos sobre os olhos e teria que encarar mais um dia invadindo a sala, o quarto. O som das crianças brincando lá fora a irritava, estava com azia e sem abrir os olhos procurava o despertador para calar aquela campainha maldita.
Esfregou o rosto sobre o travesseiro e finalmente abriu os olhos, as sombras pareciam dançar e as crianças lá fora ainda gritavam. O espelho em frente ao canto da cama exaltava seus olhos imperfeitos abrigando as pálpebras caídas, quase desistentes - via semelhanças com os olhos de César, ainda menino e ao lembrar dele esboçava um sorriso que logo desapareceria.
Lá estava ela, depois de mais uma noite que não se lembrava de nada, o que seria dessa vez? Pílulas? Láudano? Vinho? Que impulso era aquele que a levava incansável rumo ao fim.
Precisava apenas de seus cigarros e uma boa xícara de café, o que a matava aos poucos era a sua feição humanóide, onde se estampava toda a previsibilidade de suas ações. Vestia um peignoir azul celeste que combinava perfeitamente com a manhã, que insistia em entrar pelas portas de vidro, as cortinas quietas davam o tom da quentura que tomava o quarto àquela hora, não havia brisa.
Seus pés brancos, unhas pintadas de carmim, descalços, não lembravam em nada os pés sujos de lama, os mesmos da fuga, que sangravam com brita do asfalto encarnada nas solas. E estavam agora lisos, alvos e limpos como pezinhos de princesa.
Mas sentia-se ainda naquela praça, com os pés machucados, confinados em sapatos vermelhos, que roubara duas quadras antes dali. Talvez não se percebesse como um personagem dum conto de fadas, em busca de uma estrada amarela, por onde caminharia e alcançaria seu verdadeiro lar.
Será que algum dia sentir-se-ia em casa?
Todos os dias a sensação de que na noite anterior havia feito algo horrível, imperdoável. Desistira de ser aquela que deflagrara fugas alucinadas e restava-lhe a falta de vontade de prosseguir, o ostracismo se encarregando de devolvê-la para a cama.
Não gostava de pensar em suas vítimas, em quantas pessoas arruinou até estar ali, envolvida em seus lençóis de cetim e em sua camisola de seda, à espera do café da manhã.
As paredes de tão brancas ficavam amareladas pela força do sol que invadia o quarto e a acordava, acompanhada da impressão de que estava no lugar errado, mas não poderia contar isso a ninguém. As outras pessoas não a consideravam uma estrangeira.
─ Senhora, posso entrar? – chamava uma voz feminina doutro lado, enquanto batia à porta.
─ Sim, claro, entre! – respondeu Cecília ainda atordoada.
─ Senhora, café, biscoitos, pão, torradas, melão, suco de laranja e requeijão! Bom apetite! – dizia gentil, enquanto ajeitava os travesseiros, para Cecília se recostar,
─ Obrigada, querida! – disse se acomodando entre os travesseiros
─ Se terminar antes que eu volte só toque este sino para que venha ajudá-la! Prazer em servi-la, senhora! – disse a moça saindo do quarto.
Como comer alguma coisa? Seu estomago revirava-se, mas não se lembrava de sua última refeição decente. Como recusar, estava tudo tão bem preparado naquela bandeja?
A porcelana estava reluzente, o café muito bom, pedia um cigarro. Quando criança adorava molhar o pão no café, embora sua mãe ralhasse e dissesse não ser higiênico, qual o problema em molhar o pão no café? Não era higiênico pensar que tudo se misturaria no estômago, virando uma só pasta e depois excremento!
Como estavam bons os biscoitos deliciosamente preparados que pareciam de mentira, recobertos com uma fina camada de cream cheese e geléia de goiaba e com o gosto do café era algo indescritível, o doce e o amargo, mesclados com o frugal, tocavam um momento encoberto pelo tempo.
Será que aquela moça tão delicada teria preparado seu café com carinho, ou feito como todos os dias? Teria a noção de que ela e Cecília eram feitas da mesma matéria? E que aqueles sabores traziam à boca uma lembrança quase perdida e fizeram Cecília chorar?

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