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segunda-feira, 2 de julho de 2007

Recanto

Acordou com uma dor de cabeça terrível, parecia que pesava toneladas e que se afundava no colchão, os lençóis macios e cheiravam bem, negava-se a abrir os olhos, pois a luz incomodava, mas ouvia o barulho de ondas e de pássaros, não se lembrava de estar perto do mar. Poderia ser um sonho ainda, apertou os olhos, mas o som parecia ecoar em sua cabeça, repetidamente.
César a olhava da poltrona, que estava próxima da janela, não conseguia vê-lo direito, por causa da claridade que vinha de fora e invadia o aposento, mas era ele e podia senti-lo invadindo seus sentimentos mais secretos. A luz intensa feria os olhos e os pensamentos, tentou cobrir o rosto com uma das mãos.
O ventilador girava lento, como sua cabeça, estava atordoada.
─ Enfim, de volta a vida, minha querida. Sente-se bem? Quer que eu ajeite seu travesseiro, que peça seu café? - perguntou enquanto se levantava com uma feição dissimulada.
─ Não precisa, estou sem fome, sente aqui, estava com saudades de você, quero seu colo!
Ele sentou-se no canto da cama e ela recostou-se entre suas pernas, enquanto recebia um afago nos cabelos.
Quando ficava assim, sentia-se uma menina, ele era sua referência e mesmo quando não estava presente, tinha o poder de acalentar ou potencializar seus medos. Era o único homem que tinha contato íntimo verdadeiro. Um entendimento mútuo pairava sobre os dois, algo intocável, imaculado, quase mórbido.
Os pensamentos de Cecília estavam confusos, iam e vinham como as ondas e só queria ficar ali, congelar aquele momento de quietude que abrandava suas dores, suas insatisfações. Mas sabia que em algum momento teria que enfrentar de novo a realidade e isso deixava Cecília ansiosa e infeliz, melhor seria aproveitar a calmaria do momento.
─ Quer um cigarro? - ergueu o braço e alcançou o isqueiro e os cigarros no criado mudo.
Acendeu o cigarro e entregou a ela, gentil, com aquele jeito de menino, como se o tempo tivesse voltado, era mais amável e enquanto havia amor não ouvira dele uma palavra aguda ou uma repreensão por seu comportamento descontrolado e impulsivo.
Mas as coisas mudam quando nos tornamos um fardo.
Cada trago aquecia seu peito, enquanto as mãos cuidadosas dele ainda a afagavam e ela não queria que acabasse, nem que o verdadeiro César voltasse.
As ondas por certo contariam segredos e ela não passaria impune por aquele momento. A fumaça bailava branca, como uma daquelas cortinas de seda fina, ao sabor do vento.
Sentia a respiração dele, sentia o desejo que despertava, mas preferia ficar quieta.
Pela porta de vidro olhava o mar, as ondas iam e vinham, revirando a areia da praia.
─ Porque estou aqui? - perguntou quase em um sussurro e ele não respondeu.
A fumaça descortinava-se em seus olhos e por alguns instantes tirou-a dali.
Então se lembrou das brincadeiras no lago, dos banhos que tomavam juntos quando criança, da primeira vez que sentiu vergonha de sua nudez e da maneira que ele a abraçou sem nada dizer, mesmo que soubessem que a vergonha era recíproca. Depois desse banho sempre esteve nua diante dele.
Lembrou da casa do sítio, da muralha de pedra que cercava a sede, dos animais pastando naquela imensidão verde e da guerra de estrume que faziam e gargalhou.
─ O que foi? - perguntou César.
─ Apenas me lembrava da casa do sítio, das guerras de estrume.
─ Sim, e a Boneca, passávamos horas cavalgando...
─ Mas quando voltava para casa eu levava bons cascudos, por deixar a pobre tão cansada.
Entregaram-se ao som do mar mais uma vez. O som compassado trouxe muitas recordações, quase alucinações de seu passado.
Viu o pai abrindo os olhos e sorrindo, dentro do caixão, a filha morta por baixo de seu seio, viu-se sendo arrastada para o sanatório, os abusos que sofrera lá, a fuga, os pés em carne viva.
Um vento frio percorreu sua espinha tomando seus olhos e como nas tardes de tempestades, nas noites úmidas e escuras no sítio, ela se escondeu como uma menina assustada, por entre as pernas de César.
─ Minha querida, está se sentindo bem?
─ Não, não estou bem, mas fique aqui comigo assim, só mais um instante!

Um comentário:

Anônimo disse...

Larissa,

Que gostoso de te ler!

Eu tinha um cavalo chamado Estrela e uma bezerrinha cujo nome era Boneca...

Teu texto me encantou!

Abraços, flores, estrelas...